E O CEU DE MIRAMAR featured

Não é ficção, é realidade!

09:19Oliver Fábio

"Após assistir um vídeo, o escritor brasiliense, Oliver Fábio, passou por uma transformação radical para chamar atenção para os dados alarmantes de violência contra as mulheres". 

ATENÇÃO: 
ANTES DE COMEÇAR A LER O TEXTO ASSISTA AO VÍDEO!

“Não consigo ver o vídeo!”
Foi o que consegui comentar na postagem que uma amiga compartilhou, segundos após o play. Fiquei extremamente triste, angustiado e arrasado com as imagens. Tanto que me forcei a vê-lo posteriormente.

Esse assunto não deveria ser debatido apenas próximo ao dia 25 de novembro - Dia Internacional da não-Violência contra a Mulher. Essa realidade é diária e o alerta deve estar sempre no vermelho.

25 de novembro de 1960 ficou conhecido mundialmente por conta do maior ato de violência cometido contra mulheres. As irmãs Dominicanas Pátria, Minerva e Maria Teresa, conhecidas como “Las Mariposas”, que lutavam por soluções para problemas sociais de seu país, foram perseguidas e presas diversas vezes, até serem brutalmente assassinadas.

A violência contra a mulher, seja física, psíquica ou sexual, é um problema mundial que não distingue classe social ou raça: é maléfica, absurda e injustificável! E deve ser combatida com punições mais severas.
•••••
"Era o homem que eu amava e eu fingia ser a ‘Alice’."
Quando me vesti de mulher, quis representar a dor que elas sentem de alguma forma. A ideia era quebrar o machismo que há por trás dessas agressões. Chega dessa cultura de que homens devem ser viris e durões, e mulheres frágeis e submissas. Chega de colocar a mulher em segundo plano, chega dessa subestimação velada. Vou reivindicar sempre a igualdade! Homem, mulher, homossexual, bissexual, negro, índio... são tantos rótulos, mas o que importa é que somos humanos e, portanto, iguais!

Mas precisava se vestir de mulher? Minha resposta foi sim para algumas pessoas. Queria chamar a atenção para essa causa de alguma maneira não comum, então pensei em ‘um homem vestido de mulher que apanhou de um homem’, meio confuso, mas esse foi o conceito do ensaio. Eu sou a favor da igualdade de gênero e qualquer tipo de abuso precisa de punições mais rigorosas. Precisamos quebrar esse sistema machista. Quando saí à rua, quis causar algo, queria que os homens percebessem que eu era um homem e tivessem algum sentimento, nem que fosse de vergonha por eu estar trajando aquele vestido e refletissem.

E porque o ensaio de noiva? Porque muitas mulheres depositam sua felicidade no seu companheiro e se atam a isso, pensam que não vão conseguir viver sem eles e muitas acabam aceitando certos comportamentos agressivos, por paixão, dependência e por vários outros motivos. 
•••••
As mulheres viveram apagadas por muitos séculos, desempenhando apenas o papel de reprodutoras e viviam suas vidas exclusivamente para cuidar dos afazeres domésticos e dos filhos. Essa cultura retrógrada vem se arrastando até os dias atuais.

 “A alma de uma mulher e a alma de uma porca são quase o mesmo, ou seja, não valem grande coisa.” (Arnaud Laufre). Esse era o pensamento dos homens na Idade Média. Naquele tempo, a mulher era ao mesmo tempo doada e recebida, como um ser passivo ao seu marido. Sua principal virtude, dentro e fora do casamento, deveria ser a obediência e submissão. Filha, irmã, esposa: serviam somente de referência ao homem que as usavam como objetos. Porém, se passaram muitos séculos e a cultura das Amélias permaneceu. As mulheres precisam quebrar essa máxima! Precisam viver a mulher da música Inpendent Women (Destinys Child)
•••••
 POR QUE OS HOMENS AGRIDEM AS MULHERES?

"Eu era bonita, mas pouco a pouco ele
 foi tirando a minha beleza e meu sorriso."
“Em agosto de 2010, a jovem afegã Bibi Aisha foi capa da revista Time e tornou-se mundialmente conhecida após seu rosto ter sido desfigurado aos 18 anos pelo marido, na província de Uruzgan, Afeganistão”. Esses episódios precisam ter um outro final e que não seja a impunidade!

Alguns homens possuem uma forte relação de posse sobre a mulher. Esse é um adulto emocionalmente fraco, medroso, inseguro sexualmente, frustrado com os insucessos da vida e muitos encontram abrigo no álcool, bebem para romper os limites e para tentar se sentir mais seguros na sua masculinidade.

A questão da violência está enraizada em nossa história e cultura, não sendo o agressor o único culpado pelas agressões:

A violência vem de berço, cresce com meninos e meninas e se perpetua nos adultos. Está no inconsciente daquelas crianças que cresceram vendo a mãe subjugada pelo autoritarismo, que, em muitos casos, agride, humilha e espanca. A cena repetida muitas vezes se banaliza e passa a fazer parte da vida, com naturalidade.

"Se você não brincar como eu quero eu não brinco mais e, se insistir, eu te bato". É mais ou menos isso o que acontece na vida adulta. Não houve amadurecimento na vida desse homem.

Segundo o jornal sul-africano Weekly Mail and Guardian, um estudo feito na península do Cabo mostrou que a maioria dos homens que afirmava não agredir a esposa achava que bater em mulher era uma conduta aceitável e que isso não era violência.
Evidentemente, esse conceito deturpado com frequência é aprendido na infância. Na Grã-Bretanha, por exemplo, certa pesquisa mostrou que 75% dos meninos entre 11 e 12 anos acham aceitável o homem bater na mulher quando provocado.
"Momentos de solidão e dor se tornaram cada vez mais frequentes".


Infelizmente somos reflexos dos nosso pais, da nossa infância. Herança de lares destruídos, de pais tiranos, porém, é possível deixar esse histórico amargo para trás. É possível superar esses dramas e trabalhar essa realidade. Homens agressivos precisam aceitar que são seres débeis e devem buscar ajuda ou viverão sempre inseguros, forçando uma mulher a estar ao seu lado para que possam se sentir mais homens. Aí, vem a pergunta: Mas será que homens violentos podem mudar de comportamento? Alguns mudam. Mas, em geral, o agressor não muda a menos que admita que sua conduta é imprópria, que queira mudar e que procure ajuda. No entanto, a verdade é que o agressor escolhe a brutalidade como forma de dominar a mulher. A violência é uma válvula de escape e é preciso identificar esse fator x, para que haja uma real mudança.

Geralmente, o agressor é muito amigável com outras pessoas e esse dualismo na personalidade faz lembrar o personagem de “O Médico e o Monstro”. Isso explica por que os amigos e os familiares, às vezes, não acreditem que ele seja violento em casa. 
"Foi um dia especial, mas logo as marcas começaram a 
surgir e eu apenas tentava esconder".

Algumas pessoas chegam a pensar que as vítimas não se importam em serem maltratadas. Porém, essa ideia surge de pessoas que não compreendem a real situação de impotência de tal mulher, que não tem para onde fugir. A mulher que é vítima de agressão talvez tenha amigos que a abriguem por alguns dias ou meses, mas, o que ela fará depois? Não é fácil arrumar emprego, pagar aluguel e ainda cuidar dos filhos, e é ilegal fugir com os filhos. Em muitos casos, quando a mulher foge, o marido vai atrás e a obriga, ou a convence, a voltar para casa.

Muitas famílias fecham os olhos e dizem que é coisa de casal. Não é! Essas mulheres precisam de ajuda, muitas chegam a aceitar essa vida por medo de não conseguirem sozinhas. Devemos intervir enquanto há tempo. Veja o histórico de Minas Gerais: só no primeiro semestre de 2015, foram 283 homicídios motivados por violência doméstica, uma média de 47 por mês. São dados assustadores. Em média, 18 mulheres são mortas todos os dias na Europa, 12 delas nas mãos de seus parceiros íntimos ou de outros membros da família, de acordo com o UNODC. Em 2014, 84 mil mulheres foram vítimas de homicídio no mundo, o que representa 18% dos 468 mil homicídios no ano.

No livro E océu de Miramar?, uma personagem sofre graves agressões de uma rapaz que amava e esse episódio mudou para sempre sua vida. Porém, num primeiro momento, ela não percebeu a gravidade do caso e isso acontece rotineiramente em lares brasileiros.

Desculpa, isto não voltará a acontecer!” – Mentira! Vai, sim! Isso é lenda. Os agressores sempre usam essa frase para tentar contornar a situação e muitas mulheres acabam perdoando. 
•••••
"Eu me enganava, dizendo a mim mesma que ele ainda mudaria".

“Personagem jovem, nos seus 16 anos, após ser considerada em risco por viver com a mãe alcoólatra, vai viver com a família do tio. Lá, recebe todos os tipos de maus tratos de sua esposa sendo submetida a uma vida de brigas, privação dos direitos básicos como alimentação e banho e, por muitas vezes, espancamento. O tio é responsável pela negligência, a tia é quem prática todos os tipos de barbaridade quase levando a jovem à morte. O pior é ter que ver as justificativas mais infundadas por parte de quem deveria proteger e abrigá-la. O livro em questão é Uma razão para respirar de Rebecca Donnovan”, de Anastácia Cabo, do blog Julund.

Nem só a fulana da esquina ou a personagem do livro que sofrem agressões, até famosas já passaram por casos graves: Gretchen teve que cancelar um de seus casamentos em cima da hora porque seu então noivo a teria agredido momentos antes da cerimônia; Rihanna experimentou um conturbado namoro com o músico Chris Brown e virou manchete de jornais após apanhar do parceiro em 2009. Várias fotos da cantora com o rosto machucado foram divulgadas na época; Palmirinha, a cozinheira mais querida do Brasil contou em entrevista que seu marido era “mau elemento” e que apanhou dele diversas vezes; Luana Piovani foi agredida por Dado Dolabella. Este foi condenado a dois anos e nove meses de prisão por ter agredido a atriz e a camareira em 2008. Teve de cumprir a ordem de se manter a pelo menos 250 metros de distância de Luana. 
Quem é violento REPETE! Dado Dolabella novamente cumpriu outra ordem de se manter afastado a uma distância de 300 metros da ex-mulher Viviane Sarahyba e de seus parentes.

São casos que não ficarão ocultos, pois mulher alguma deveria se prestar a esse papel de vítima. Precisa enfrentar a situação e denunciar, sim, buscando um novo começo longe do algoz. 
"Eu sou uma das mulheres das estatísticas".

COMO AJUDAR ESSAS MULHERES?

Primeiro, devemos ter compaixão, compreender a situação delas. Muitas vezes, a agressão não se restringe à violência física. O agressor costuma usar ameaças e intimidação, fazendo com que a vítima se sinta inútil e desamparada, o que as impede de denunciarem.
"A face da dor, só eu conheço".

Esses homens são doentes, precisam ser identificados e devem passar por um tratamento. As punições precisam ser mais severas, pois as medidas protetivas não estão sendo suficientes para mantê-los longe das nossas mulheres.


A justiça até tem trabalhado em prol dessas mulheres. A Lei 8.305/14 classifica o feminicídio como crime hediondo e modificou o Código Penal, incluindo o crime entre os tipos de homicídio qualificado.

Podemos contar com a Lei Maria da Penha, que homenageia uma mulher chamada Maria da Penha Fernandes, que durante muitos anos foi agredida por seu esposo até que ficou paraplégica, vivendo hoje em cima de uma cadeira de rodas. Maria da Penha relata tudo o que viveu em seu livro:  "Sobrevivi... posso contar".
"Eu poderia denunciá-lo, mas nesse país sem lei, seria o mesmo que ativar uma roleta russa".
Há vários caminhos para sair desse pesadelo. E as denúncias de casos de violência podem ser feitas pelo número 180, na Central de Atendimento à Mulher. A ligação é gratuita e quem faz a denúncia não precisa se identificar. O serviço também está disponível para as mulheres que queiram ter orientações sobre o enfrentamento à violência.


O caminho é reabilitar os que cometem crimes enquanto eles cumprem suas sentenças na prisão. Todos têm o direito ao tratamento e à reabilitação, pois voltarão a viver em sociedade e novos laços afetivos serão formados.
"Ele mentiu, ele me enganou... ele não me amou".
''Quanto mais próximo se chega de alguém, maior é a chance de haver dor''. (Marshal Hodge). Isso é uma verdade, mas quando a pessoa ama de verdade ela não se comporta de forma agressiva, pois isso não é amor!
"Mas um dia eu resolvi mudar!"
 “Os maridos devem estar amando as suas esposas como aos seus próprios corpos. Quem ama a sua esposa, ama a si próprio, pois nenhum homem jamais odiou a sua própria carne; mas ele a alimenta e acalenta, assim como também o Cristo faz com a congregação.” — Efésios 5:28, 29.


Eles dizem que são homens, porém, homens não são! Mulheres, busquem independência, não deem uma segunda chance para quem já te deu um tapa. Diga sim para sua dignidade e não para a violência. Agressores possuem um histórico e não vão mudar isso de uma hora para outra. Corra, corra e vá viver sua vida em um porto seguro!
"Eu escolhi mudar o meu final!"

•••••

Era um cavalheiro apaixonado
Se mostrava o homem perfeito
Mas as flores e as cores se foram
Noites incertas e carícias mortais
Dardos de tapas, ofensas e traições
Destroçaram seu pobre coração
E o respeito esperava lá fora.

Ele te condena
mas o cárcere não é seu lugar
A ilusão precisa acabar
Chega de apanhar, chorar, implorar e rogar
Serão sempre promessas jogadas ao vento
Dê o seu valor, tenha mais amor
Até o labirinto do silêncio tem saída.

Chega de lágrimas
Não desça mais os degraus da escuridão
Apresse o passo que lá fora
Vida leve te espera.
Teu destino é ser livre, mulher.
As cores e as flores ainda te esperam.
(Oliver Fábio)


EXTRAS:

Créditos: 
Makeup Artist: Patrícia Jesus Fotos: Wellington Aguiar 
Agressor: Luciano Luz Vítima: Oliver Fábio

____________________________________________________________________________________________________________________

POSTADO POR Oliver Fábio
Viu algum erro ou gostaria de adicionar uma sugestão para atualizarmos esta matéria? Colabore com o autor clicando aqui!


Você vai gostar também

8 comentários

  1. Imagens fortes, mas que infelizmente mostram a realidade, como muitas mulheres ainda sofrem com esse tipo de coisa.
    É importante debater e refletir cada vez mais esse tema.
    Parabéns pela iniciativa

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Muito obrigado. Quando eu vi o vídeo eu não pude ficar alheio a causa e resolvi produzir esse texto e ensaio. Essa foi a minha pequena atitude de alerta para essas mulheres que vivem essa vida. Espero que elas se libertem do agressor.

      Excluir
  2. DIGO E REPITO: Excelente matéria, representação e mensagem! Infelizmente essa é uma realidade em nosso mundo e passa por muitos olhos de forma 'passiva', como se fosse um romantismo com slogan 'entre tapas e beijos' quando a verdadeira realidade é que isso ocorre quando o parceiro não ama e muito menos respeita a mulher, quando a sociedade a coloca a margem 'A Deus dará' e quando o medo é tão eminente que ela silencia e se 'refugia' em suas dores!
    Parabéns pelo post e pela forma de pensar
    Abraços.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Muito obrigado, Eloísa. É impossível ver o vídeo e não ficar incomodado, e foi isso que aconteceu comigo e resolvi produzir o ensaio e texto e quem sabe alertar as mulheres que vivem nessa situação.

      Excluir
  3. Maravilhoso, me emocionei muito, tanto com as imagens, quanto com o texto. E repito aqui o que você escreveu no final. ''Mulheres, busquem independência, não deem uma segunda chance para quem já te deu um tapa. Diga sim para sua dignidade e não para a violência. Agressores possuem um histórico e não vão mudar isso de uma hora para outra. Corra, corra e vá viver sua vida em um porto seguro!''

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Elas precisam entender que começa com um tapa e só vai aumentando, é muito raro o agressor mudar. Sabemos que não é fácil se libertar, mas elas precisam tentar e sair viva dessa relação destrutiva.

      Excluir
  4. Excelente matéria meu amigo! Realmente não podemos nos calar, porque enquanto estamos aqui, indignados, alguma mulher neste mundo está sofrendo estas dores e angústias de serem maltratadas... infeliz realidade!

    Parabéns pela iniciativa e pela super produção.

    Grande abraço!!

    ResponderExcluir
  5. Incrível Oliver. Seu artigo me ajudou bastante na redação do en em. Parabéns pela iniciativa.

    ResponderExcluir